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sábado, 28 de julho de 2012

J.S.Bach. Cantata No. 82. A douçura e a leveza de Natalie Dessay

Você conhece maior doçura que creme de chocolate com chantily? Se ficou difícil responder, dou-lhe uma dica: a ternura da voz soprano ligeira da francesa Natalie Dessay cantando J. S. Bach. Com ajuda da Wikipédia, um pouco sobre o conceito deste tipo de voz... 


"O soprano ligeiro (do italiano, ligero) é o timbre feminino mais leve dos sopranos, cuja emissão se apoia principalmente na ressonância craniana e nas cores claras do som. A voz em geral é doce, leve e de pouco volume, ideal para personagens jovens, alegres e/ou angelicais."




No vídeo abaixo, não temos exatamente uma personagem. Trata-se da belíssima e convidativa Cantata No. 82 do Bach. Tão leve, tão doce, tão etéria como boa parte da obra do gênio alemão, combinando feito vinho e queijo com a voz de Dessay. Vale a pena conferir.



Weslay Mendonça

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Carlos Gomes - "Laudamus-te" Missa de Nossa Senhora da Conceição



Bom... feito tia velha que aparece de surpresa depois de passar anos sem dar notícias, lá se vai esta peça "rapidinha", que vai ("indo de com força") inspirada pelo blog de PQP Bach e sua turma. Trata-se da passagem "Laudamus -te" da empolgante missa do carioca Antônio Carlos Gomes: "À Sossa Senhora da Conceição". Admito eu que não sou muito fã de Gomes, apesar de me emocionar muito todas as vezes que escuto a passagem mais melódica da abertura de seu IL GUARANY, que um dia postarei aqui, também. Esta missa, no entanto, me chama a atenção muitíssimo por sua coisa meio bachianica, meio italiana e por seu tema também brasileiro. Sim, meus caros, o romântico Carlos Gomes prestigiava temas "brasilianos", apesar de compor principalmente em italiano (ressalva para esta missa que está em Latin e não na língua dos dramáticos Giaochino Rossini e Giacomo Puccini). Vai ver é por este nacionalismo às aversas que não gosto muito de seu estilo. Vai ver é por não curtir muito a ópera italiana, como já disse outrora neste mesmo blog.

Nossa Senhora da Conceição Aparecida
Quanto à soprano, tenho pouquíssimo a dizer, ou melhor, tenho nada mesmo: não a conheço, nunca a vi ou ouvi mais gorda. Mas quanto a esta missa, já ouvira antes em um recital na Bienal do Livro de minha cidade e sou suspeito para falar que vale a pena ouvi-la, pois senão não teria eu cá postado.

Weslay Mendonça

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Handel - Deixes que eu chore! por Jarousky, dos filmes "O Anticristo" e "Farineli".



Por conhecidência, mais uma ária de George Frideric Handel que foi bem utilizada pelo cinema recente: a "Lascia Ch´io Pianga" da ópera "Rinaldo" em uma estupenda interpretação de Philippe Jaroussky. Diz a letra, ultimamente bastante associada ao sofrimento dos famosos castrati: tipo de voz humana adulta comum conseguida com o ato agressivo da castração de crianças do sexo masculino, realizada por setores da Igreja Católica durante vários séculos, até meados do início do século XX). Quando cresciam, aquelas crianças possuíam timbre próprio, que as diferenciavam tanto das vozes masculinas agudas, quanto das vozes femininas. Muitos compositores escreviam obras destinadas a este estilo de voz. Segue-se a letra da ária de Handel:

"Deixe que eu chore
minha sorte cruel,
que eu suspire
pela liberdade.
A dor quebra
estas cadeias
de meus martírios,
só por piedade!"


Weslay Mendonça

domingo, 9 de outubro de 2011

Liszt - La Campanella — Alice Sara Ott



La Campanella é um estudo para piano de Franz Liszt escrito em 1838 e revisado pelo próprio autor em 1851. A inspiração veio de uma melodia do Concerto para violino nº2 de Paganini. Numa época Romântica em que a música descritiva era moeda corrente entre os artistas, até mesmo o toque de um sininho era fonte de geniais criações. Sim, "La Campanella" significa "Sininho".

Ouvimos os tais sininhos logo no inicio do estudo. Eles se tornam uma idéia fixa, recorrente durante toda peça, enlouquecem o ouvinte atento e predisposto. No final, por sinal apoteótico, os sininhos se transformam em retumbantes carrilhões, aptos a quebrar qualquer resistência ao aplauso entusiasmado!

Liszt
Alice Sara Ott é uma formosura pianística, mais uma entre outras que temos apresentado por aquí. Nasceu em Munique, Alemanha, e é de origem oriental. Ganhou muitos prêmios internacionais para piano, numa demonstração inequívoca de que rapidez no teclado não serve apenas para secar o esmalte das unhas. Putz, ela tem talento, garra e... muita beleza... O que mais vocês querem? Vejamos e ouçamos!

Se os amigos leitores quiserem ouvir mais um pouquinho de Madame Ott basta clicar AQUÍ pra baixar um arquivo (9 MB) onde ela toca a Rapsódia Húngara nº2 para piano, tambem de Liszt. Nem sei mais quantas vezes essa Rapsódia foi utilizada em desenhos animados: bichinhos tão famosos quanto o Pica Pau, Pernalonga e Tom & Jerry já tocaram essa peça nas telinhas...

Alice Sara Ott
Ernesto D.C.


sábado, 1 de outubro de 2011

Boccherini - Stabat Mater (abertura)




Estava buscando uma nova versão do Stabat Mater do Pergolesi para ouvir, quando os caminhos tortuosos do Google me apresentam esta belíssima obra de Boccherini. Resultado? Cá esta, em um belo clipe postado no Dailymotion.

"Stabat Mater Dolorosa juxta Crucem lacrimosa, dum pendebat Filius"



Mais uma vez tentando traduzir estes versos da forma mais coerente possível com o impacto de sua  poesia, temos o seguinte: "Estava a sofredora mãe (dolorosa) chorando aos pés da cruz a qual pendia seu filho!". Esta é para começar o mês de outubro com chave de ouro, apesar de que pedimos um pouco de paciência aos nossos leitores, pois assim como em setembro, outubro e novembro não deverão ser meses de muitas atualizações.

                                                                                                                                   Weslay Mendonça


sábado, 24 de setembro de 2011

Ravel - Jeux d'eau - Martha Argerich



Costuma-se dizer que o impressionismo musical teve início com a obra do francês Claude Debussy, ele próprio influenciado por pintores de sua época. É uma música voltada para a criação de atmosferas semi-transparentes num fluxo contínuo e sugestões sensoriais que usam como temas preciosos o vento, ondas, água em movimento, etc...

Uma observação: tendo em mente essas características podemos encontrar elementos impressionistas em épocas anteriores a Debussy, como por exemplo em Liszt e até em Chopin. Mas voltarei a falar sobre isso em outro post.

Hoje escolhí uma obra de Maurice Ravel, "Jeux D'Eau" (Jogos de Água), para vosso deleite estético. Ravel, fruto de uma região que fica na França muito próxima à Espanha, prosseguiu na linha musical de Debussy, mas sua forte personalidade adicionou ainda mais paixão e sensualidade ao vento morno do impressionismo.

Jogos de Água! Sintam o ardor desses maravilhosos "clusters" (cachos de notas musicais) estonteantes, escalas rapidíssimas e vertiginosas que fazem nossa imaginação voar. E ainda por cima pelas mãos da fantástica pianista argentina Martha Argerich, que dispensa maiores apresentações...

Os leitores que tiverem curiosidade em ouvir o próprio Ravel tocando uma obra de sua autoria (Miroirs nº2) podem clicar AQUÍ (Rapidshare) ou AQUÍ (Mediafire) para baixar um arquivo (10 MB) contendo a reprodução moderna recuperada de um rolo de piano que o compositor gravou em 1912. Esses "piano rolls" eram um mecanismo empregado para registrar toques em um teclado com extrema fidelidade, clareza e limpeza, bem superior ao antigo fonógrafo.

                                                                                          Ernesto D.C.


Ravel
Martha Argerich







sábado, 17 de setembro de 2011

J.S.Bach - Partita No. 4 (Allemande) - Priya Mayadas




Se alguem de vocês é do tempo dos LIVROS (algo esquecido por muita gente), vou dizer: a obra de Johann Sebastian Bach ocupa 60 volumes enormes. Dá pra ter uma idéia? Não? Então imagine isso em bits e bytes, o resultado vai ser igualmente enorme!

Mas tudo bem, nos tempos barrocos as produções dos compositores eram mesmo usualmente grandes, eles recebiam muitas encomendas de aristocratas e de clérigos para compor música comemorativa, por um motivo ou outro. Por exemplo, Bach escreveu 300 cantatas.

O seu repertório que mais me atrai está entre as obras seculares (não religiosas), tipo sonatas, suites, tocatas, concertos, partitas. As seis partitas para teclado são incríveis, geniais. Cada uma delas é uma coleção de peças instrumentais que à época eram normalmente interpretadas ao cravo, mas hoje tocamos despudoradamente ao piano moderno, o que não empana o brilho delas, de forma alguma.

Temos aí acima um video contendo a Allemande da Partita nº 4 de Johann Sebastian Bach. Allemande é um tipo de dança popular, mas nesse caso vertida para a forma instrumental e erudita. O instrumento é um piano, como vocês poderão ver. E as mãos alvas e delicadas que extrairão sons sublimes do teclado pertencem a Priya Mayadas, muito formosa mas pouco famosa pianista hindú.

Os amigos leitores que desejarem ouvir essa mesma peça em sua versão original para CRAVO podem clicar AQUÍ (Rapidshare) ou AQUÍ (Mediafire) para baixar um arquivo (apenas 24 MB) contendo a leitura do especialista/cravista inglês Sir Trevor Pinnock.

                                                                                                   Ernesto D.C.

Priya Mayadas
J.S.Bach

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Albinoni e Giazotto- Adágio


Desta vez, uma obra popular. Talvez a obra mais popular de Albinoni, mas que, na verdade, não é de Albinoni. Com certeza a obra mais popular de Giazotto, mas que talvez não tenha sido este quem a compôs, e sim Albinoni.  - "Emmmm!?" Exclamará você, sensível e curioso leitor deste blog. - "Como assim?" Depois me perguntará você ansioso (só não mais que este humilde blogueiro).
É que na verdade, na verdade, o ocorrido foi o seguinte que se segue...



"Era uma vez... do outro lado do oceano, um pequeno país mágico em formato de bota. Lá, todos os tipos de pessoas, ricos, pobres, bonitos, feios, bruxos, corcundas, padres e santos falavam uma estranha língua, escrita com símbolos, notas musicais e linhas, chamada musiquês!
Um certo dia, há quase 100 anos, um rapazinho branquelo encontrou algumas folhas soltas, perdidas numa biblioteca de sua cidade (a grandiosa Pisa), todas escritas em musiquês. Nestas folhas continham, dentre outras coisas e um conjunto de símbolos e linhas, uma bonita canção. Quando o jovem resolveu ler os escritos, um belo som de órgão de tuba soava pelo ar e falava com sotaque do século XVII, dizendo coisas e emitindo sons que encantaram o rapaz. Este jovem, chamado Remo Giazotto resolveu, então, colocar e escrever mais símbolos naquele papel, porém sem adicionar uma linha sequer, fazendo este ainda ficar mais bonito. Vendo que havia conseguido, resolveu, também, publicá-lo,  para que mais pessoas do seu país pudesse ouvir a beleza daquele som estranho, falado com sotaque estranho, porém com algumas alterações feitas por ele. As folhas, então, fizeram um enorme sucesso, todo mundo queria ter uma cópia em casa para ler e ouvir durante todo o tempo de suas vidas.
Albinoni (1671 - 1751)
No certo momento, muito curisos, todos queriam, então, ver os papeis originais. Quando conseguiram, perceberam que ali assinava o nome de Tomaso Albinoni, antigo homenzinho rico do cabelão, já falecido, nascido dentro das gôndolas da cidade de Veneza.  Quando perguntado, antes de distribuir as cópias, quem era o muito criativo compositor daquela beleza, o jovem Remo respondeu: "o nome dele é Tomaso Albinoni!" Porém, depois do sucesso, resolveu assumir de vez que também fez parte do trabalho, dizendo-se também seu criador."
Essa é a pequena história desta linda canção de sotaque barroco, divulgada em musiquês somente no século XX, com algumas modificações.  Na prática, as linhas de baixo (o órgão de tubos) são de Tomaso Albinoni. Já as linhas melódicas, as cordas, são de Remo Giazzoto. Como veremos acima.
Quem interpreta é a Orquestra de Câmara Franz Liszt, da Hungria. Boa audição.

Weslay Mendonça

sábado, 10 de setembro de 2011

Paganini - Caprice No.24, Alexander Markov




Que absurda esta interpretação de Alexander Markov para o 24o Caprice. Paganini provavelmente revirou-se de felicidade umas 1000 vezes em seu túmulo antes do minuto 3:00 desta apresentação, por que depois do pizzicato deve ter voltado a falecer, só que desta vez de ataque no coração. Em umas postagem rápida de começo de fim de semana, este grande violinista russo deve deixar sua marca na história como um dos grandes executores do virtuose italiano. Dom Yehudi Menuhin certa vez disse: "Markov é, sem dúvida, um dos mais brilhantes violinistas dos novos tempos". (Novos tempos pro Menuhin, é claro!). Mas alguém duvida após ver este vídeo? Um espetáculo! Vale a pena ver e rever, com atenção muito especial ao pizzicato! Segurem-se nas cadeiras, meu caros! Deus salve a boa música!

Weslay Mendonça

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Rachmaninoff - Preludio em Si menor - Valentina Igoshina




Talvez seja um equívoco postar uma música lenta de um compositor russo numa sexta feira de ânimos agitados, desejos exacerbados e atenções diluídas... Fins de semana normalmente aniquilam a capacidade de concentração de um cérebro humano, principalmente se a temperatura começa a subir, como está ocorrendo agora em S.Paulo. Mas as alvas mãos de uma bela mulher compensam o risco e, afinal das contas, sempre caem muito bem sobre o teclado de um piano.

A peça, Preludio em Si menor, é de um compositor russo, Serguei Rachmaninoff, e a beldade-intérprete é mais uma vez a Valentina Igoshina, da terra da vodka.

Ela, como tantos dos seus compatriotas, parece ter uma queda e um destino inevitavelmente ligado à música, a música de caráter triste e fatalista. A Rússia, como vocês sabem, é um país acostumado às genialidades densas de artistas como Rachmaninoff, Tchaikovsky, Dostoiewsky, Tolstoi e que afortunadamente se absteve de produzir um Ronnie MacDonald ou um Bozo.

O Preludio em Si menor foi escrito em 1910, período em que "Rach" ainda vivia em sua pátria, portanto antes de se mudar para a terra do Pato Donald, o que viria a acontecer depois da Revolução de 1917.

O início lento, reflexivo e repetitivo se alterna para uma parte central tumultuada que nos leva perigosamente à beira do precipício existencial, mas que para nossa tranquilidade retorna aos motivos iniciais.  Rachmaninoff foi um virtuose do piano, um dos melhores à sua época, portanto não economizou notas e complexa técnica pianistica nesse trabalho.
Rachmaninoff


Deleitem-se então com o Preludio em Si menor de Rachmaninoff na leitura de Valentina Igoshina. Clicando AQUÍ ou AQUÍ vocês poderão fazer download de um arquivo (13 MB) contendo o mesmo Preludio, mas dessa vez interpretado por outro pianista russo, Vladimir Ashkenazy.
                                                                                                   Ernesto D.C.


terça-feira, 6 de setembro de 2011

Beethoven - Sonata para Violino No. 7 (2o movimento)


A música de Beethoven me compreende ou sou eu quem lha faço? Qual a origem da tamanha intimidade que meu espírito de praxe solitário possui e sempre possuiu com as melodias atemporais da obra do grande compositor? Acho que deve haver uma explicação! Realmente acho que em algum lugar do universo deve haver uma explicação, mas qual seria? // Talvez dissesse-me um físico: "- meu caro, são as vibrações da harmonia do Luigi, que, tamanhas, devem encontrar interferências nas vibrações de seu corpo e de seus ouvidos, resultando em variações constantes de movimentos harmônicos simples e desarmônicos, logo depois" Talvez, com certa ansiedade, completasse depois um músico: "-sim, mas o que realmente há são acordes quebrados na mão esquerda, escalas ascendentes e tensões sonoras incompletas ao longo da obra; fatos estes que, somados, dar-te-ão a sensação contínua de tensão criada e de tensão resolvida, típicas da música do compositor". Por fim, poderia ainda aparecer-me um religioso e dissesse: "-Ludwig possuia um dom de Deus, daqueles que são dados aos homens para fazer na terra a continuação da criação iniciada pela divindade. O que você sente, meu caro, é a intimidade com a própria obra de Deus, expressa através da obra de Ludwig!" // Ai, bom, não me daria por satisfeito, é claro. Afinal, deve ser tudo aquilo e nada, ao mesmo tempo. Ao final das falas de todos e de nenhum, portanto, ficaria eu esperando ainda a chegada de algum beija-flor. E então, quando este chegasse  e sem ainda falar nada, simplesmente voasse a minha frente, escolhendo dentre as flores a mais bonita do jardim. 
Enquanto isso, eu, finalmente, ao som desta Sétima Sonata para Violino (2o movimento) compreenderia, melhor do que ninguém e sem saber as razões científicas, filosóficas ou teológicas do porque estou ouvindo-a com tamanha identificação. E saberia que não é outra coisa senão o fato de ser eu mesmo, naquele momento, o seu compositor. Seria eu mesmo quem, ali,  é o responsável por sua criação. E, assim, seria eu o reverberador do seu resultado tão poético junto aos quatro cantos do mundo que há dentro de mim. E mas do que isso: só, e somente só, aconteceria tal fenômeno para que fosse somente eu próprio, naquele momento, o único a ouvi-la completamente. Eis então a razão da nossa intimidade: sou eu seu compositor, seu mais fiel divulgador e seu mais empolgado ouvinte durante o rápido e intenso momento em que estou ao seu contato. Sem dúvida, é esta a razão de minha intimidade com a música de Luwdig. // Pierre Amoyal e Alexix Wessenburg tocam-na, vejam o vídeo! Viva a obra de Ludwig van Beethoven! 



Weslay Mendonça

sábado, 3 de setembro de 2011

Chopin - Fantasia Improviso Op.66 - Valentina Igoshina



Nessa minha segunda postagem eu ia falar um pouco de Charles Griffes, compositor americano de estilo impressionista, algo tão raro quanto um alemão impressionista. Mas vou deixar essa tarefa para o futuro, já que não conseguí achar um video de qualidade aceitável. Vamos então para Chopin, detentor de um prestígio inabalável tanto entre os críticos empedernidos como entre os consumidores dos chamados "clássicos populares".

A Fantasia-Improviso em Do Sustenido menor para piano Op.66 desse compositor polonês foi editada em 1834 (primeira versão) e em 1835 (versão final). Existem pequenas diferenças entre ambas, apenas um punhado de notas. Aquela que tocamos em presentes tempos é a primeira, mas a que contava com a aprovação por parte do próprio Chopin era a segunda.

A seção inicial da Fantasia-Improviso tem um caráter passional e agitado mas que nos leva a uma contrastante seção central, lírica e sonhadora. Após o devaneio há um retorno às melodias arrebatadoras que ouvimos no início. Portanto, trata-se de uma composição em formato A-B-A (temas iniciais seguidos de temas centrais contrastantes e depois retorno aos temas iniciais), conhecido tecnicamente como "forma de canção". É uma das obras do repertório pianistico mais conhecidas por todos, inclusive é daquelas que me recordo ouvir na infância, e que talvez tenha precipitado meu gosto por música clássica.

A interpretação que temos no video é da linda e talentosa pianista russa Valentina Igoshina, nascida no não tão longinquo ano de 1978 e ganhadora de diversos importantíssimos prêmios internacionais. Ela toca a primeira versão da obra chopiniana.

Já os que desejarem ouvir a segunda versão da Fantasia-Improviso poderão clicar AQUÍ e fazer download do arquivo (apenas 7 MB) que contem a interpretação do "mágico" pianista Arthur Rubinstein.

                                                                                                    Ernesto D.C.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Música clássica é mais ouvida que Rock, Hip Hop e Música Eletrônica em Salvador.

Essa notícia empolgante vem do jornal Correio da Bahia. Segue:

"Música clássica ocupa 6º lugar na preferência dos soteropolitanos."

Ao ligar o rádio, muitos soteropolitanos ainda se surpreendem ao encontrar uma estação que só toca música clássica: a Vida FM 106,1. De forma semelhante, a pesquisa do CORREIO/Instituto Futura, publicada domingo, também causou surpresa ao captar a força que esse gênero musical tem hoje na capital baiana.


Apreciada por 3,8% dos entrevistados, a música clássica ficou em 6º lugar no gosto geral, à frente do rock (3,2%) e do pop rock (2,3%). Se esses dois últimos gêneros fossem unidos, ela perderia uma colocação, mas ainda assim ficaria na cola do samba (4,2%) e do axé (4,3). Além disso, continuaria batendo o hip hop (2,3%), a música eletrônica (1,3%), a bossa nova (0,5) e o jazz (0,3).

O resultado deixou especialistas da área espantados. “É uma excelente novidade, um resultado muito importante!”, comemora o maestro Ricardo Castro, 46 anos. Ele imaginava que a distância entre a música clássica e gêneros mais midiáticos fosse maior. “Quero crer que a chegada do Neojibá ajudou a provocar esse novo interesse”, diz ele, que desde 2007 coordena esse projeto de criação e manutenção de orquestras jovens na Bahia, inspirado no modelo venezuelano El Sistema.

Sem Barreiras Maestro, compositor e professor da Escola de Música da Ufba, Paulo Costa Lima, 56, também se diz impressionado. “Apesar de que eu já sentia que o interesse andava aumentando. Em 2010, por exemplo, tive um programa na rádio Metrópole, em que eu apresentava Beethoven e Bach, misturado com música de candomblé, e ele foi muito bem recebido”.

Tanto Ricardo Castro quanto Paulo Costa Lima ressaltam como a música clássica em Salvador tem rompido limites de classe social, escolaridade e faixa etária. De acordo com a pesquisa do CORREIO, esse gênero ainda atinge, sobretudo, as classes A/B (6,1 %). Mas, proporcionalmente, ele de fato não está tão longe das classes C (4,9%) e D (3,1%). Os resultados mostram que ouvintes com mais de 60 anos são maioria (7,4%), mas adultos jovens, de 30 a 39 anos (4,9% ) e de 20 a 29 anos (3,7%), também são fãs de concertos.

O nível de escolaridade tampouco chega a ser grande impedimento: entre os amantes de Villa-Lobos (1887- 1959) e outros compositores eruditos, 6,7% passaram por um curso de nível superior, enquanto 3,9% possuíam ensino médio e 2,5% tinham ensino fundamental.

“A preferência musical tem muito a ver com oferta. Muitas vezes a pessoa só ouve pagode porque é só isso que chega até ela”, afirma Ricardo. Com as ações do projeto Neojibá, que dá formação musical a jovens de baixa renda e promove concertos a preços populares, ele acredita que o acesso à musica clássica tem se democratizado. “A gente atinge classes C e D. Sem falar que a maioria dos nossos músicos, a priori, não se interessaria por música clássica. São jovens da rede pública de ensino, não são Maristas. E mesmo assim são os melhores do Brasil, sendo elogiados no mundo todo”.

Popularização

Diante do cenário favorável à música clássica, os maestros Ricardo Castro e Paulo Costa Lima acreditam que o gênero vai se popularizar ainda mais.

“Podemos subir mais nessa lista aí!”, garante Ricardo. Ele lembra que, na década de 50, o gênero era sucesso na cidade, lotando o teatro do Iceia, no Barbalho. “Hoje a gente está recuperando terreno e de uma nova forma. Naquela época, nem todos os segmentos da sociedade tinham acesso a concertos como hoje”.

Paulo, por sua vez, sugere que uma nova pesquisa seja feita daqui a quatro anos, para que a evolução seja mensurada. “O desafio é também formar um cidadão ouvinte, que tenha maturidade e consciência crítica. Com isso ele vai rejeitar mercados apelativos e rasteiros”, opina.

domingo, 28 de agosto de 2011

R.Strauss - "Also Sprach Zaratustra"/ "Assim falou Zaratustra" (Completo)






Friedrich Nietszche
No silêncio desta madrugada de sábado para domingo, o lugar do encontro dentre as obras de Friedrich Nietszche, Stanley Kubrick e Richard Strauss. - Pois "está no homem o sentido da natureza! Assim falou Zaratustra!". O que teriam em comum esses três mestres de artes diferentes senão a paixão simultânea pela música e pelo drama?

Nietzsche era fã assumido do drama dionisíaco da música wagneriana. Richard Strauss, um dos maiores expoentes da música dramática alemã pós-wagneriana, assim como da obra do já famoso filósofo bigodudo. Por sua vez, Stanley Kubrick, um dos maiores cineastas de todos os tempos (na opinião singela deste blogueiro), inspirou-se, também, na obra de ambos, Nietszche e Strauss. Não por acaso a abertura deste "Assim falou Zaratustra" de Richard Strauss é também a abertura do filme kubrickiano, digamos assim, "2001, Uma Odisséia no Espaço". Aliás, um dos filmes de maior impacto sonoro que já assisti. Quase um videoclipe de mais de três horas de duração, com cenas de referência para o cinema posterior ao lançamento do filme e com trilha sonora abrangente e diversa.




Richard Strauss



Stanley Kubrick


Strauss baseou "Assim falou Zaratustra", sua obra de Op.30, no poema filosófico em prosa de Nietszche. Trata-se de um Poema Sinfônico de 35 minutos de grande dramaticidade e beleza, que lembra muito a obra do outro Richard, aquele cujo o filósofo das tragédias gregas possuía expressa relação de amor e ódio: Richard Wagner. Zaratustra, para Friedrich, é uma espécie de líder ideal para a humanidade, um pensador dionisíaco. Strauss escreveu essa peça entre 1895 e 1896, regendo-a pela primeira vez em Frankfurt.


E quem seria, enfim, Zaratustra? Lembro de minhas saudosas aulas de História com a queria professora Adriana Botelho no Colégio Militar do Corpo de Bombeiros, quando, pela primeira vez, ouvi falar de Zaratustra (ou Zoroastro) e da religião fundada por esta figura, o Zoroastrismo ou Mazdeísmo, talvez a primeira religião dualista de nossa história, ou seja, capaz de dividir a natureza em Bem e Mal. Sua fé baseava-se na adoração de uma entidade suprema que era uma espécie de Pai da Sabedoria (Aura Mazda ou Ormuz), companheiro dos vivos em sua busca por justiça, por sabedoria, por vitalidade e por imortalidade. Era a religião dos antigos povos persas, tão importantes que foram para o desenvolvimento da civilização ocidental.


E milongas à parte nesta postagem excepcionalmente extensa, por nossa percepção de que o poema sinfônico de Strauss não dispensaria sua completude e essas considerações que aqui as faço, quem interpreta no vídeo é a Orquestra Nacional de Santa Cecília, italiana, sob a regência do igualmente italiano Antonio Pappano. Espero que gostem. Abraços.




Zaratustra ou Zoroastro
Weslay Mendonça

sábado, 27 de agosto de 2011

C.P.E. Bach - Cantata para Barítono "Mein Geist, voll Furcht und Freuden", do Oratório "Die Auferstehung und Himmelfahrt Jesu"

Mais uma ótimo exemplo da obra do filho mais ilustre do papai Bach. Desta vez, trata-se do barítono Stephan Genz interpretando uma bela cantata para a altura de voz que, já que não é a de maior drama, é a de maior poesia dentre as vozes masculinas na opinião deste humilde blogueiro. É o excerto "Mein Geist, voll Furcht und Freuden" do oratório "Die Auferstehung und Himmelfahrt Jesu" de Carl Philip Emanuel Bach. Apesar do nome feio em alemão, a tradução do título do oratório para o português é simples, apesar de não ter sido realizada por mim: "Ressureição e Ascenção de Jesus".




Em um estilo de influência bachiânica, a música é doce e divertida, ao mesmo tempo. Abaixo, o vídeo. Boa audição!




Weslay Mendonça
Comemorando o dia 27 de Agosto
Dia do Psicólogo.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

C.P.E. Bach - Concerto para Flauta em D menor




Carl Philipp Emanuel Bach foi provavelmente o compositor mais importante de sua geração, o período de surgimento do estilo clássico, em meados dos segundo e terceiro quartos do século XVIII. Filho ilustre do grande Johann Sebastian, teve brilho próprio ao longo de sua vida, inclusive ofuscando quase por completo a obra de seu pai para seus contemporâneos. Conta a história que a fama de C.P.E Bach foi tão maior que a de seu pai, em sua época, que quando se falava de Bach em música referia-se a este e não àquele, fato que se inverteria drasticamente após a redescoberta da obra de J.S. a partir do século XIX. C.P.E Bach viveu entre os anos 1714, nascido quando seu pai possui 29 anos, e 1788, falecido 38 anos após o Bach hoje mais famoso. Foi contemporâneo de Mozart, Haynd, Salieri e de seu irmão, Johann Christian Bach, o outro também bastante conhecido da família. No vídeo, um simpático movimento Allegro di Molto do Concerto para Flauta em Réb do compositor. Quem interpreta é o flautista András Adorján, cuja página do facebook é esta aqui, juntamente à Orquestra Bach de Munick, conduzida pelo bretão Christopher Hogwood. Aos caros acompanhantes deste blog, mais este vídeo, como novidade e prenúncio de breves outras novidades.

Weslay Mendonça

Liszt - Dança dos Gnomos por Georges Cziffra


Esse é meu primeiro texto-colaboração para o blog Rádio Clássica e eu gostaria de começar abordando o "coração" da Música Erudita: o Romantismo. (Ernesto D.C). 



"Gnomo da Lagoa do Paraíso". Jericoacoara, Ceará.
Fotografia de Weslay Mendonça, 2010.


O movimento romântico se iniciou na Literatura lá pelo final do século 18, mas musicalmente apenas no início de século 19. Caracterizou-se por se contrapor ao racionalismo clássico. Dialeticamente suas armas foram o subjetivismo, a fantasia de rédeas soltas, o escapismo, o individualismo e a emotividade. O húngaro Franz Liszt foi "o grande romântico" na sua forma de pensar, agir, compor e tocar. E um grande virtuose do piano com ideais românticos só poderia mesmo criar essa enlouquecedora "Dança dos Gnomos", escrita por volta de 1862. Nessa peça (um estudo para piano de dificílima execução) nosso Liszt explora o teclado de forma extensa, do agudo ao grave.

Na partitura a indicação de andamento diz "Presto Scherzando". Rápido e brincando... Sim, já estou imaginando: as notas se sucedem em velocidade supersônica... Sempre brincando... Sempre atordoando... Sempre parecendo aquelas formiguinhas escuras, loucas e trepidantes sobre o papel branco da partitura... E, onipresentes, os gnomos (esses anõezinhos feios e malvados) pulando como celerados em volta de uma fogueira estalando no interior soturno da Floresta Negra Alemã... Opsss, já estou me deixando levar pela fantasia romântica e pelo clima encantador gerado por essa minúscula e mágica peça para piano. "Gnomenreigen!" Vamos então ouví-la!

P.S.: Minhas interpretações favoritas dessa peça são as de Guiomar Novaes e de Claudio Arrau. Mas fiquem com essa visão do pianista húngaro Georges Cziffra.
P.S.2: Se o leitor desejar baixar o mp3 "Dança dos Gnomos" com Claudio Arrau ao piano basta clicar nesse link aqui.

                                                                                                   
Ernesto D.C.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Chopin - Valsa Op.64-2 por Artur Rubinstein




Depois de postar versões de Evgeny Kissin e de Vladimir Horowitz, anteriormente, uma tensão criada pelo caro Er, leitor deste blog, fez-me sentir em dívida a também fazê-lo com uma versão de Artur Rubinstein. O que dizer do pianista polonês? Bom, em poucas palavras, compartilhadas com o próprio Er, há leveza e segurança na interpretação. Talvez como poucos, e aqui sugerindo tal qual o leitor, Rubinstein executa o compositor polonês com tamanha espontaneidade que deve ter origem em seu compatriotismo com Chopin. Sensações outras a parte, a versão é linda e de tanta leveza que por um segundo imaginei Gene Kelly dançando de cabeça para baixo esta valsa polaca, tal qual fazia Gene em efeitos hollywoodianos e tal qual faz acima Rubinstein sobre seu instrumento de cauda: uma extensão das suas mãos.

Weslay Mendonça

sábado, 20 de agosto de 2011

Chopin - Valsa No.7 por Evgeny Kissin ou Vladimir Horowitz

A destreza técnico-emotiva de  Evgeny Kissin e a sensibilidade apurada, mesmo veloz, de Vladimir Horowitz, o que você prefere? Não que o primeiro não seja também sensível (e bastante) ou que o segundo, menos ainda, não seja um exímio técnico da arte do piano clássico. Mas é nítida a diferença na interpretação ente ambos quando tocam a Valsa No.7 de Chopin, opus 64-2. O primeiro precisa apelar para um tempo mais largo para passar emotividade, enquanto o segundo, mantém um tempo mais comum às valsas do século XIX e, mesmo assim, passa mais emoção romântica. Em 2009 já havia postado o vídeo do russo mais antigo e sensível (ah, diga-se de passagem, ambos são de escola russa, mas só o primeiro é russo, de nascença, o outro é ucraniano), mas vi o vídeo de Kissin e quis postar esta comparação. Eu, particularmente, prefiro a interpretação de Horowitz, que apesar da qualidade do vídeo não estar tão boa, tem mais a cara que acho que tem a música de Chopin. Bom, vejam vocês, caros leitores/ ouvintes deste blog e tirem, vocês próprios, suas conclusões.

  
Evgeny Kissin, uma versão mais técnica (apesar de mais lenta)

Vladimir Horowitz, uma versão mais emotiva (apesar de mais veloz).

Weslay Mendonça

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Satie - Peça para Piano "Lenta e Dolorosa" ou "Lent et douloureux " (Gymnopedie No.1) por Aldo Cicclolini.



A tragédia na Somália e o atual egoísmo de ser Feliz.



Perdendo a mãe aos 7 anos, Erik Satier foi criado por um tio boêmio. Ingressou aos 14 no Conservatório de Paris, cidade onde nasceu, quando seus professores o acusaram de preguiçoso, medíocre e sem senso de ridículo. Tocava em cabarés e cafés, guardando muito desse estilo de tocar em suas composições. Era excêntrico e irônico, foi membro da Ordem Rosacruz e chegou a fundar uma igreja própria, da qual era o único fiel. Tinha uma coleção de ternos cinza que nunca usou. Aos 40 anos surpreende voltando a estudar música, na Schola Cantorum de Paris. Morre de cirrose após anos de bebedeira. Só então, atrás do seu piano, amigos encontram a partitura perdida há quase 30 anos de uma de suas grandes composições: Jack-in-the-box. Era um símbolo entre os jovens compositores da época. Inventou a música ambiente, gritando por vezes aos espectadores que se mexessem ao invés de ficarem parados ouvindo-a, e introduziu sons como sirenes e máquinas de escrever em partitura de orquestra. Também é considerado cubista, minimalista, e graças a uma obra sua (o balé Parade) existe a palavra "surrealismo". Satie não reagia muito bem a críticas. Quando um crítico atacou a estreia de Parade, ele mandou-lhe um cartão postal dizendo: "Sr. crítico, eu sei que você é apenas um cu, porém um cu sem música. Ass.: E. Satie. O resultado foi 15 dias de cadeia para Satie. Aqui, sua triste peça para piano "Lenta e Dolorosa", da sequência Gymnopedies.






Lenta e dolorosa também a morte de milhares de seres humanos pela fome e pela cólera no Chifre da África, tal qual noticiários dos quatro cantos da mídia tem informado ao mundo nos últimos dias. Fenômeno que me faz lembrar de alguns argumentos em moda na contemporaneidade de que os irmãos africados são por nós tão esquecidos que nossas ideologias, nossos governos, até mesmo nossas bandeiras dos direitos humanos não conseguem alcançar. Nosso cotidiano cheio de "falta de sentidos" nos cegam para a possibilidade de sermos fraternos e, enquanto isso, morrem à míngua e às margens de nosso egoísmo pessoas tão dignas de Vida quanto nós. À margem de nossa busca cega e incondicional por uma tal "felicidade".




A felicidade é sentimento egoísta em nossa forma de entendê-la como sendo, ao máximo, algo que perpasse o ser humano como centro de si mesmo. Se pensamos em felicidade como a possibilidade de auto-realização, aos moldes dos valores contemporâneos individualistas, vendo-a por dentro de um sistema social injusto, caótico e antropocêntrico, esta se traduz não de outra forma a não ser em egocentrismo: retorno do Eu ao próprio Eu, hipertrofia da Identidade.  Como podemos alcançar a felicidade em estar ao lado de alguém que amamos se este fato em si não determina a felicidade dos povos ou o equilíbrio da natureza? Como podemos nos dizer felizes por possuir bens se os tenho dentro de um sistema que justifica as minhas posses através da miséria da maioria dos outros de nós? Como poderiamos sentirmo-nos felizes por que estamos curados de alguma doença se a maioria de nossos iguais ainda morre por infecções menores ou por sede, ou fome, ou vírus, ou pertubações orgânicas e psíquicas de natureza estrutural, ou seja, de origem na própria forma de organização do homem?
Não, não podemos nos sentir felizes.
Talvez, sintamo-nos alegres, mas a alegria difere da felicidade por não possuir um caráter estático ou eterno. A alegria é o sentimento espontâneo e passageiro que emerge de momentos de prazer, específicos. Talvez  sintamos "alegrias" através das coisas desta ordem, mas felicidade, não. É impossível. No caso particular deste blogueiro idealista, nem sinto e nem quero senti-la por estes dias, pois neste caso terei abandonado qualquer sonho, terei abandonado a própria capacidade de viver no mundo, no sentido mais profundo da acepção Viver no Mundo. No dia em que me sentir feliz, terei entrado e concordado com tudo de anti-vida, tudo de anti-humano, tudo de anti-religioso que existe dentro de um lógica individualista, maldosa, pecaminosa (em termos teológicos).

Pois a verdadeira felicidade não é um dado, nem um fim possível dentro das lógicas e das morais vigentes. A verdadeira felicidade é um potencial, um vir a ser est-Ético, transcedente as atuais estruturas. É um possível simultaneamente temporal (terreno) e escatológico (transcendente). Podemos entendê-la, por exemplo, como a concretização do Reino de Deus (como gostaria Boff ou Dussel) ou como uma sociedade justa, limpa, amorosa, fraterna, sexualizada, liberta, harmônico-caótica, fractal, orgânica, política, vital, homeostática, trans-tática, equilibrada. Nossa geração, no máximo, pode buscá-la, querer vivê-la, lutar por ela e conseguir vitórias significativas (alegrias profundas, caminho para a felicidade: um processo). Assim, estaremos fazendo juz a nossa capacidade de Sermos Humanos, como a de nos fazer insistentemente a pergunta: o que podemos fazer?
Mais notícias sobre a Somália vide aqui.

Weslay Mendonça