
Sempre ouvi esta valsa me remetendo a pelo menos duas lembranças importantes em minha vida, os contos de fadas e princesas que ouvia, lia e assistia na Tv Ceará quando criança e, não sei bem por qual motivo, ao meu desejo de estar próximo às flores, as paisagens verde-coloridas do interior dos sítios que visitava em minha infância na cidade de Russas, interior de meu pai. Hoje em dia, esta segunda lembrança em mim já vai se esvoaçando, excerto pelo vermelho forte do morango que, numa ocasião social em um destes sítios, chegou a mim como algo fascinante, dentro de uma bandeja alta e inacessível. E o vestido da soprano é vermelho, olhem só que coisa! No lugar destas lembranças mais antigas, me vem muito à cabeça hoje minha festa de formatura do ensino fundamental, mais pelo som dançante das valsas, do que propriamente por esta "Vozes da Primavera". Lá tocou outro Strauss, o Danúbio Azul. Desde então, valsas me lembram sempre aquela data, quando dancei com minha irmã forró em rítmo de valsa: coisa de cearense. As vezes acho que meu superego se esquece de mim ou sou eu que me esqueço dele. Não vou falar muito sobre Johann Strauss por não conhecer suficiente a sua música, somente algumas das suas valsas mais famosas. Do pouco que sei, poderia dizer ser ele de um período romântico vienense, mais pro final do que pro auge do romantismo na Europa. Assim como era comum em seu tempo, vinha de uma família de músicos consagrada em seu país, a Austria. A mim me parece que este compositor fora um dos primeiros grandes nacionalistas na música, valorizando expressões rítmicas tradicionais, tal qual também o fizeram, por exemplo, Listz, Brahms, Nepomuceno e, um pouco mais tarde, os russos pré-revolucionários e revolucionários, como Stravinsky. No mais, a música é linda, rítmicamente dançante e, como se não bastasse, ainda é interpretada por Kattleen Battle, em uma versão cantada incomum. Na regência, o "controvertidíssimo" Hebert vom Karajan, um dos maiores arranjadores de todos os tempos das sinfonias do meu querido Ludwig van. No entanto, também odiado por sua passagem pelo Partido Nacional Socialista Alemão, em plena segunda guerra mundial. Esta parte de sua história, segundo ele, teve que passar, pois como músico morreria de fome senão estivesse no sistema. Pensemos, então, o que quisermos a respeito. Mito, pra muitos, monstro, pra outros, em menor quantidade. Karajan é um gênio da música, independente de suas pretensões políticas. Para mim, ele está perdoado por tudo, vai para o céu, graças a qualquer execução da nona sinfonia que realizou e, principalmente, por haver sido casado durante quase toda sua vida com uma mulher de origem judaica. Sensasionalismos midiáticos a parte, o cara foi o mais completo regente do século XX de suas terras germânicas, indiscutivelmente, na interpretação das sinfonias de Beethoven.
Weslay Mendonça