Carl Philipp Emanuel Bach foi provavelmente o compositor mais importante de sua geração, o período de surgimento do estilo clássico, em meados dos segundo e terceiro quartos do século XVIII. Filho ilustre do grande Johann Sebastian, teve brilho próprio ao longo de sua vida, inclusive ofuscando quase por completo a obra de seu pai para seus contemporâneos. Conta a história que a fama de C.P.E Bach foi tão maior que a de seu pai, em sua época, que quando se falava de Bach em música referia-se a este e não àquele, fato que se inverteria drasticamente após a redescoberta da obra de J.S. a partir do século XIX. C.P.E Bach viveu entre os anos 1714, nascido quando seu pai possui 29 anos, e 1788, falecido 38 anos após o Bach hoje mais famoso. Foi contemporâneo de Mozart, Haynd, Salieri e de seu irmão, Johann Christian Bach, o outro também bastante conhecido da família. No vídeo, um simpático movimento Allegro di Molto do Concerto para Flauta em Réb do compositor. Quem interpreta é o flautista András Adorján, cuja página do facebook é esta aqui, juntamente à Orquestra Bach de Munick, conduzida pelo bretão Christopher Hogwood. Aos caros acompanhantes deste blog, mais este vídeo, como novidade e prenúncio de breves outras novidades.
Em alguns dias de tristeza profunda e necessidade de renovação, paramos, nos isolamos, e queremos nada mais que ficar sozinhos, pensando sobre nossa vida. Este ato especificamente humano de "refletir-se", voltar o que somos para pensar o que somos, ou seja, sermos objeto de nosso próprio estudo, chamamos de meditação. Ora, a capacidade de meditar é a característica básica de Ser Humano. Mas aqui então eu me pergunto, será que todas as formas de meditação são saudáveis? E a resposta é óbvia: não, não são. Existem meditações em diversos níveis de importância para nós e para nos conhecermos. Níveis estes que vão dos mais neuróticos/ racionalistas aos mais sensíveis, realistas. A meditação neurótica é aquela que se afasta da realidade, tentando explicá-la. É aquela cuja lógica é mecanicista, matemática, em uma relação linear de causas e efeitos. E termina, buscando nos fazer entender mais sobre nós mesmos, nos fazendo construir para nós qualquer coisa como uma personagem, um avatá, distante do que somos de verdade, do que vivemos e do que podemos viver. Por outro lado, no extremo oposto, está a meditação sensível: àquela que pensamos com base em nossos sentimentos. Sua lógica é conexa-desconexa, contraditória, intuitiva, afetiva, complexa. Nesta forma de meditação, conseguimos encontrar maiores relações entre o objeto que construímos sobre nós e nós mesmos. É uma meditação saudável, perceptível de nossas potencialidades para a resolução de nossos problemas, é nosso Oráculo. Acho que esta é a diferença entre uma meditação deprimente e outra "bem sucedida". E como conseguir uma meditação "bem sucedida?", bom creio que não há forma ou fôrma. Não é uma receita de bôlo. Mas uma coisa eu tenho certeza, mecanismos que potencializem os nossos sentidos são o 1o passo para conseguirmos uma boa meditação. É como se precisássemos nos perceber através de nossos sentidos para, depois, sentindo quem somos, pensarmos em quem somos e o que fazer com a nossa vida. Incenso, olhos fechados, percepção corporal e, claro, uma boa audição. Para meditar, então, nada melhor que a música de Bach.
No vídeo, a Münchener Bach Chor & Orchester regida pela grandíssimo maestro Karl Richter e solada pela voz potente e doce de uma contralto bachiana, cujo nome infelizmente não tenho, é uma música em oferecimento à sua meditação e apreciação, caro leitor. Trata-se do Agnus Dei da Grande Missa ou Mass In B Menor. A música inicia-se com um belo e sedutor jogo de violinos, harmonizados por Baixos e Cello, ao fundo. Esse inicio é preparatório para a entrada da Contralto, que entra celeste, cantando "Agnus Dei". Ao longo da peça, a voz canta e é respondida por inserções coerentes do violino, todas ressentimentos da introdução. Quando a voz pára, por um instante, retorna o tema do violino, agora mais vigoroso, mais forte e mais encorpado. Segue-se, novamente, o jogo voz com resposta dos violinos. Finaliza-se com os violinos, assim como tudo começou. Profunda! Meditativa! Bachiana!
Para Deus, dizem, os anjos tocam Bach. E o que seria a missa em Si de Bach senão a obra sacra mais comovente do Barroco? Deus realmente estaria agradecido por esta homenagem. O Kyrie Eleison, aqui interpretado pela Orquesta Bach de Munick, em nome de Karl Richter, diviniza ainda mais a música do grande mestre. É um coro belíssimo contraponteado por uma orquestração densa, por vezes de uma densidade forte (como se rezasse apoteoticamente), por outras de uma densidade suave (como se o fizesse baixinho, de joelhos no chão, de mãos frontepostadas). Para quem escuta e quer acompanhar o coro, são dois versos principais: "Kyrie eleison, Cristie Eleison" que traduzidos do Latin são "Senhor, tende piedade de nós; Cristo, tende piedade de nós". Obervem a importância do Órgão de Tubas durante toda a obra. Assim como prelúdio e o desenrolar do tema principal, muitas vezes e deliciosamente repetido ao som de timbres vocais e instrumentais diferentes. Destaque para os contrapontos entre vozes e orquestração. Importante lembrar que, apesar de poucos atentarem, Bach era um compositor luterano, de família luterana, mas presenteou a humanidade inteira e os católicos , em particular, com essa maravilhosa missa latina.