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segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Satie - Peça para Piano "Lenta e Dolorosa" ou "Lent et douloureux " (Gymnopedie No.1) por Aldo Cicclolini.



A tragédia na Somália e o atual egoísmo de ser Feliz.



Perdendo a mãe aos 7 anos, Erik Satier foi criado por um tio boêmio. Ingressou aos 14 no Conservatório de Paris, cidade onde nasceu, quando seus professores o acusaram de preguiçoso, medíocre e sem senso de ridículo. Tocava em cabarés e cafés, guardando muito desse estilo de tocar em suas composições. Era excêntrico e irônico, foi membro da Ordem Rosacruz e chegou a fundar uma igreja própria, da qual era o único fiel. Tinha uma coleção de ternos cinza que nunca usou. Aos 40 anos surpreende voltando a estudar música, na Schola Cantorum de Paris. Morre de cirrose após anos de bebedeira. Só então, atrás do seu piano, amigos encontram a partitura perdida há quase 30 anos de uma de suas grandes composições: Jack-in-the-box. Era um símbolo entre os jovens compositores da época. Inventou a música ambiente, gritando por vezes aos espectadores que se mexessem ao invés de ficarem parados ouvindo-a, e introduziu sons como sirenes e máquinas de escrever em partitura de orquestra. Também é considerado cubista, minimalista, e graças a uma obra sua (o balé Parade) existe a palavra "surrealismo". Satie não reagia muito bem a críticas. Quando um crítico atacou a estreia de Parade, ele mandou-lhe um cartão postal dizendo: "Sr. crítico, eu sei que você é apenas um cu, porém um cu sem música. Ass.: E. Satie. O resultado foi 15 dias de cadeia para Satie. Aqui, sua triste peça para piano "Lenta e Dolorosa", da sequência Gymnopedies.






Lenta e dolorosa também a morte de milhares de seres humanos pela fome e pela cólera no Chifre da África, tal qual noticiários dos quatro cantos da mídia tem informado ao mundo nos últimos dias. Fenômeno que me faz lembrar de alguns argumentos em moda na contemporaneidade de que os irmãos africados são por nós tão esquecidos que nossas ideologias, nossos governos, até mesmo nossas bandeiras dos direitos humanos não conseguem alcançar. Nosso cotidiano cheio de "falta de sentidos" nos cegam para a possibilidade de sermos fraternos e, enquanto isso, morrem à míngua e às margens de nosso egoísmo pessoas tão dignas de Vida quanto nós. À margem de nossa busca cega e incondicional por uma tal "felicidade".




A felicidade é sentimento egoísta em nossa forma de entendê-la como sendo, ao máximo, algo que perpasse o ser humano como centro de si mesmo. Se pensamos em felicidade como a possibilidade de auto-realização, aos moldes dos valores contemporâneos individualistas, vendo-a por dentro de um sistema social injusto, caótico e antropocêntrico, esta se traduz não de outra forma a não ser em egocentrismo: retorno do Eu ao próprio Eu, hipertrofia da Identidade.  Como podemos alcançar a felicidade em estar ao lado de alguém que amamos se este fato em si não determina a felicidade dos povos ou o equilíbrio da natureza? Como podemos nos dizer felizes por possuir bens se os tenho dentro de um sistema que justifica as minhas posses através da miséria da maioria dos outros de nós? Como poderiamos sentirmo-nos felizes por que estamos curados de alguma doença se a maioria de nossos iguais ainda morre por infecções menores ou por sede, ou fome, ou vírus, ou pertubações orgânicas e psíquicas de natureza estrutural, ou seja, de origem na própria forma de organização do homem?
Não, não podemos nos sentir felizes.
Talvez, sintamo-nos alegres, mas a alegria difere da felicidade por não possuir um caráter estático ou eterno. A alegria é o sentimento espontâneo e passageiro que emerge de momentos de prazer, específicos. Talvez  sintamos "alegrias" através das coisas desta ordem, mas felicidade, não. É impossível. No caso particular deste blogueiro idealista, nem sinto e nem quero senti-la por estes dias, pois neste caso terei abandonado qualquer sonho, terei abandonado a própria capacidade de viver no mundo, no sentido mais profundo da acepção Viver no Mundo. No dia em que me sentir feliz, terei entrado e concordado com tudo de anti-vida, tudo de anti-humano, tudo de anti-religioso que existe dentro de um lógica individualista, maldosa, pecaminosa (em termos teológicos).

Pois a verdadeira felicidade não é um dado, nem um fim possível dentro das lógicas e das morais vigentes. A verdadeira felicidade é um potencial, um vir a ser est-Ético, transcedente as atuais estruturas. É um possível simultaneamente temporal (terreno) e escatológico (transcendente). Podemos entendê-la, por exemplo, como a concretização do Reino de Deus (como gostaria Boff ou Dussel) ou como uma sociedade justa, limpa, amorosa, fraterna, sexualizada, liberta, harmônico-caótica, fractal, orgânica, política, vital, homeostática, trans-tática, equilibrada. Nossa geração, no máximo, pode buscá-la, querer vivê-la, lutar por ela e conseguir vitórias significativas (alegrias profundas, caminho para a felicidade: um processo). Assim, estaremos fazendo juz a nossa capacidade de Sermos Humanos, como a de nos fazer insistentemente a pergunta: o que podemos fazer?
Mais notícias sobre a Somália vide aqui.

Weslay Mendonça

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