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quarta-feira, 6 de julho de 2011

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Por que não se ouve tanta música clássica no Brasil?

A música clássica no Brasil, à mercê da representação social difusa que ainda se tem dela, é estilo dos que mais sofrem pré-conceitos, especulações superficiais quanto a sua qualidade, quanto à natureza de seu público ou seu objetivo social. Nós, seus ouvintes, somos facilmente classificados como supostamente "cultos", "eruditos", "introspectivos", "tímidos", "conservadores" ou, o que ainda é pior, "ricos" e "pessoas da elite social". Na melhor das hipóteses, o ouvinte de música clássica é taxado como "louco", "doente mental", diz-se que está em fase "triste" e/ou "depressiva". 
Estes últimos adjetivos ocorrem quanto é fato visível, factício e reconhecido que o referido ouvinte não é sequer rico ou culto. Por exemplo, eu próprio, em minha adolescência, como morador de bairro de periferia de minha cidade (o querido Bom Jardim) e estudante do ensino fundamental, bom, só me restava estar na classe dos "loucos", pois nem rico, nem culto pudera ser eu socialmente reconhecido em tais condições. Ora, vejam só, que cruzes carregamos nós ouvintes de música clássica em nosso país! Porém, o pior não é isso. Esse não é o maior problema!

O pior mesmo é que o gênero, justamente por estes preconceitos sociais, perde ouvintes por não ganhar popularidade, pois as pessoas não se permitem, não se abrem a ouvir. Ora bolas, por quê? Por quê os brasileiros, em sua grandessíssima maioria, não se auto-classificariam nem como "cultos" (vide os péssimos índices da educação de nosso país), nem como ricos (vide o abismo social das terras tupiniquins). E, no mais, quem gostaria de auto-proclamar-se ou de ser proclamado pelos outros como "louco", "doente mental", "introspectivo", "depressivo" ou "conservador". 

Aliás, "conservador" no Brasil é sinônimo de "brega", "fora de moda", "em desuso", o que gera daí um outro preconceito também forte: "quem gosta de música clássica é velho, só pode ser velho! Claro, é velho!". Bom, durante minha faculdade de psicologia, era justamente esse o meu apelido, eu era O "velho". Isso, meus queridos, apesar de já ser político, como sou ainda hoje, de assuntos então relativamente progressistas, como a liberalização da maconha, o direito à união homoafetiva, a utilização político-social comprometida da prática de nós, psicólogos, etc. Mas, não, eu há muito já ouvia música clássica, portanto, eu era O "velho". Gostasse eu também de forró, de reggae, de maracatu, de baião, de coco, de samba. Frequentasse eu rodas de conversa sobre tanatologia, sobre psicologia trans-pessoal, sobre arte conceitual ou tivesse eu bases filosófico-científicas em estudos mais aprofundados em fenomenologia, existencialismo e teoria da complexidade... Não importava, era eu O "velho"!

Bom, imaginem só... que garoto de 12 anos de idade ou que jovem de 25 ou 40 anos de idade gostaria de submeter-se a tais preconceitos sociais? Como consequência disso, não se aprende a ouvir música clássica, não se permite sequer ouvi-la, não se admite gostá-la e, menos, pouco se possibilita tempo para sua audição.

Tempo, inimigo ou aliado?
Outro fator fundamentalmente importante que creio afastam os ouvintes da música clássica é a forma como nós, os seres humanos contemporâneos, vivemos a noção de tempo. Vamos pensar um pouco.

"Tempo é dinheiro", esta é a frase sangue-suga das veias de nossa existência apregoada pela dominância de um sistema capitalista selvagem, mundo a fora. Estamos, o tempo todo, todo o tempo, tentando encontrar formas de "aproveitar mais o nosso tempo", minimizar nossas distâncias, fazer mais coisas o mais rápido possível. Esta correria, consequência de um modo de produção que gira em torno da futilidade das coisas, da pouca utilização dos produtos, dos famosos boons do consumo de coisas que hoje estão na moda, mas que daqui a um mês serão antiquadas. Vivemos em uma época em que coisas que são muito valorizadas agora podem ser muito desvalorizadas amanhã; e isso se aplica a bens de consumo, bens duráveis, e, acreditem, a pessoas com as quais nos relacionamos ou às nossas idéias científicas e filosóficas.

Vamos em uma loja, compramos um aparelho celular ultra-moderno, da moda. Vamos a uma festa, conhecemos uma pessoa, ficamos com ela, as tocamos, as beijamos, temos relações sexuais. Ouvimos no rádio e cantamos uma música, dizemos que somos fãs de seu cantor/ compositor; vamos ao seu show, enchemos nossos MP3/ MP4 de suas músicas. E daqui a um ano? Um mês? Um dia? Descartamos o celular, a pessoa, a música. Que tipo de relação com as coisas e pessoas são essas, que não nos preocupamos se nos serão duradouras?

Sequer, meus amigos, temos tempo de absolver essas coisas ou essas pessoas. Não aprendemos com elas tudo o que poderíamos aprender. Não lidamos com elas a tirarmo-lhes o que tem de melhor a nos dar. Não nos envolvemos com elas, pois logo vem outra coisa ou pessoa nova e, de pronto, descartamos as "antigas".

"Tempo é dinheiro, temos que fazer tudo o mais rápido possível, não podemos nos apegar a nada e a ninguém!" Esta é a filosofia maldita de um mundo em que as pessoas não se permitem viver intensamente absolutamente nada. É a quantidade de coisas em detrimento de sua qualidade. As coisas perdem o sentido, pois dar sentido para as coisas pressupõe envolver-se com elas, vivê-las, aproveitá-las para quando, de sua ausência, sejamos capazes de sentir sua falta. Ora, só se sente falta do que se esteve presente. Se não sentimos falta, não tivemos a presença, a vivência, a coisa, a ideia ou a pessoa em si.

A música clássica é uma arte, nasceu para ser uma arte, é consequência de um processo criativo e técnico e demanda, por parte daqueles que a escutam, tempo e atenção. É como um livro, você precisa lê-lo. Como uma comida rara que provamos cada sabor contido nela para melhor aproveitarmos. Como um vinho, que não basta colocarmos a boca e engolirmos, precisamos saboreá-lo. Um quadro, que precisamos apreciá-lo com nossos olhos, descrevê-lo para nossos sentidos, decifrá-lo com nosso olhar. Na música clássica, ao contrário do que acontece na música popular, não se pode deixá-la "ao fundo" enquanto se faz alguma outra coisa mais importante. Ela nos exige que a ouçamos, que nos envolvamos com ela. Em outras palavras, precisamos de tempo para ouvi-la e de atenção para sermos envolvidos por ela. Os grandes compositores compuseram para serem ouvidos, enquanto os ouvidos do homem contemporâneo gostam da música como "música de fundo", por que, claro, ouvir música, em sua concepção fútil da vida, é também "perder tempo"!

O tempo não há ser nosso inimigo, na qual corremos atrás tentando pegá-lo, prendê-lo, pô-lo em uma gaiola com medo de perdê-lo. O tempo, ao contrário, deve ser assim como uma música, ouvido, caminhado, vivido, aproveitado, sentido, cheiro, valorizado naquilo que possui de útil e naquilo que possui de inútil. O problema não está na inutilidade que o tempo possa ter, pois aproveitarmos o tempo inutilmente significa vivenciá-lo, percebê-lo como arte. O problema está na "futilidade" nuclear que o tempo possa expressar. E esta futilidade acontece tanto quando o tempo se torna unidirecionalmente útil (estressante, sem sentido), como quando se torna unidirecionalmente inútil (niilismo/ depressivo, sem sentido), pois em ambos os casos o tempo perde sua força sensível. Qualquer coisa que não possua sentido ou que possua pouco sentido é, para mim, fútil.

Pois estes pobres homens fúteis, querendo "não perder tempo", perdem, na verdade, a vida. Pois qual é o sentido de viver se não é possibilitar-se sentir. Uma vida rápida, balística e corrida é uma vida insensível. Se não se sente, não se vive! Se não se sente a presença, não se sente a falta. Se não se sente, não se envolve! E de repente temos a sensação de que, por mais que façamos tudo muito rapidamente, não nos sobra tempo e a vida nunca passou tão rápida por entre nossos dedos. O tempo desta forma nos é uma flecha que passa de frente dos os nossos olhos, mas que sequer conseguimos distinguir quais as suas cores, qual a sua forma... pois, simplesmente, passou.

Weslay Mendonça

Um comentário:

  1. João Marcos Coimbra10 de julho de 2011 às 10:51

    Weslay, concordo em parte contigo. Há atrativo social em ser ouvinte de música clássica, pelo menos comigo há!

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