| Pyotr Ilyich Tchaikovsky |
Aqui, ouviremos a Sinfonia No.4 do compositor, regido pelo poético Daniel Barenboim. Uma postagem, hoje, duplamente inusitado, meus caros. Acreditem, mas somente agora vamos inaugurar a tag Tchaikovsky. Nem eu muito bem acredito nisso, pois é este atraso, por si só, inusitadíssimo (diga-se de passagem, o russo foi dos compositores que mais ouvi durante algum bom tempo de minha vida; aliás, dentre os russos, o que mais ouvi até hoje, provavelmente). Outro fato também inusitado, é que teremos a possibilidade de ouvir, do próprio compositor, uma pequena descrição poética de sua obra, escrita em Carta de 1878 traduzida do russo para o Inglês por Galina von Meck e desta língua para o português por Amancio Cueto Jr. (neste blog disponível na internet). Vamos à carta e à sinfonia!
"Florença,
17 de fevereiro / 1º de Março de 1878"
"Este é o “Destino”, esta é a força fatal que impede o impulso para a felicidade de alcançar seu objetivo, que vigia com zêlo para que o bem estar e a paz nunca sejam completas e sem nuvens, que pende sobre a cabeça como a espada de Dâmocles e de maneira inflexível e constante envenena a alma. Esta força é invencível, e você nunca irá dominá-la. Tudo o que resta é ceder a ela e definhar inutilmente. O sentimento de solidão e desespero se torna mais forte e mais corrosivo. Não seria melhor se afastar da realidade e se refugiar em devaneios. ]] Oh alegria! Pelo menos um devaneio doce e meigo apareceu. Uma forma humana, graciosa e brilhante, passa esvoaçando e está acenando para algum lugar. ]] Que coisa boa! Como já soa distante o obsessivo primeiro tema do allegro! Pouco a pouco os devaneios envolveram a alma por completo. Tudo o que era sombrio e sem alegria está esquecido. Aqui está ela, aqui está a felicidade! Não! Eram apenas devaneios, e no meio deles o “Destino” te acorda:"
"Assim a vida toda consiste de um ininterrupto revezamento da dura realidade com sonhos fugazes e visões de felicidade… Não há refúgio… Você tem de flutuar neste mar até ele te engolfar e te lançar em suas profundezas. A grosso modo, é esse o programa do primeiro movimento. O segundo movimento da sinfonia expressa outra fase da depressão. É o sentimento de melancolia que você tem ao final da tarde quando, cansada do trabalho, sentada sozinha, você pegou um livro mas ele escorregou de suas mãos. Agora tudo isto está em algum lugar, distante. É ao mesmo tempo triste ainda que um tanto doce mergulhar-se no passado."
"O terceiro movimento não expressa sensações definidas. Ele é feito de arabescos caprichosos, de imagens evanescentes que passam pela sua imaginação quando você acabou de tomar um gole de vinho e está experimentando a primeira fase da embriaguez.]] Seu estado de espírito não está nem animado nem triste. Você não está pensando em nada; você liberta sua imaginação, e por alguma razão ela começou a pintar estranhas imagens… Entre elas veio à mente um pequeno quadro de camponeses numa farra e uma cantiga de rua… Então, em algum lugar à distância, uma parada militar vai passando. ]] São estas as imagens completamente inconsequentes que correm pela sua cabeça quando você está adormecendo. Elas não têm nada em comum com a realidade: elas são estranhas, selvagens e incoerentes."
"O quarto movimento. Se você não pode encontrar razões para alegrar-se consigo mesma, olhe para os outros. Saia com as pessoas comuns. Veja que bons momentos elas têm abandonando-se inteiramente aos sentimentos de alegria. Uma imagem do povo comemorando num festival. ]] Mal você tratou de esquecer a si mesma e ser arrebatada pelo espetáculo da alegria das outras pessoas quando o implacável “Destino” aparece novamente e te faz lembrar de sua existência. ]] Mas os outros não reparam em você. Eles nem se viraram ou te olharam de relance, e eles nem repararam que você está só e triste. Oh, que momento amável eles estão tendo! Que sorte eles têm de todas as suas emoções serem diretas e descomplicadas. Censure-se a si mesma e não diga que tudo no mundo é triste. Há prazeres simples mas poderosos. Alegre-se na alegria dos outros. Sim, “é” possível viver."
"Isto, então, minha querida amiga, é tudo o que eu posso te contar sobre o sentido da sinfonia. É claro, tudo isto é obscuro e incompleto. Mas é típico da música instrumental desafiar análises detalhadas. “Onde as palavras terminam, a música começa”, como disse Heine. ]] Está tarde agora. Não gostaria de dizer nada sobre Florença nesta carta, exceto que eu sempre terei memórias muito, muito agradáveis dela. No final da próxima semana, aí pelo dia 24 (no nosso calendário), eu planejo partir para a Suíça, onde eu gostaria de passar todo o mês de março escrevendo pequenas peças em várias formas. ]] E assim, quando você receber esta carta, meu endereço será novamente: Clarens, Canton de Vaud, Villa Richelieu. ]] Muito obrigado, minha querida, pela carta de hoje. Ainda não recebi nenhuma palavra dos meus amigos de Moscou. Eu escreverei para você em detalhes sobre a reação deles.
PS: Antes de colocar esta carta no envelope, eu a li novamente, e estou horrorizado com a confusão e insuficiência do programa que eu estou te enviando. Pela primeira vez em minha vida eu tentei colocar em palavras e frases meus pensamentos e imagens musicais. Não consegui dizê-los apropriadamente. Eu estava para baixo, abatido no último inverno quando escrevi a sinfonia, e ela é um eco fiel do que eu estava passando naquela época. Mas ela é apenas isto, um “eco”. Como é que isto pode ser traduzido em sequências de palavras definidas e claras? — Não posso, eu não sei como. Há também muitas coisas que eu já esqueci. O que fica são recordações gerais de sentimentos de natureza apaixonada e horripilante que eu experimentei. Eu estou muito, muito ansioso de saber o que meus amigos de Moscou terão a dizer. ]]
Au revoir,
Seu, P. Tchaikovsky"Weslay Mendonça
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