
Para quem associa, necessariamente, à música clássica aos temas sagrados... conseqüência talvez da popularidade dos CD`s de divulgação da Música Sacra em meados da década de 90, em bancas de revista de todo o mundo... Desconhece, talvez, os temas profanos ou "sacro-profanos" da música ocidental. O Carmina Burana é isso. Imaginem só os mosteiros católicos da Idade Média. Lugares de intensa vigilância religiosa ao modo de ser moral da cristandade ocidental. Lugares onde as vestimentas cobriam todo o corpo, a auto-flagelação e o encoraçamento psicossocial das manifestações corporais eram as regras. O corpo na Idade Média era, segundo os filósofos cristãos, o mal do homem, o habitat do mal, do desejo carnal. E a carne era "podre"... e o espírito, sagrado. Esta divisão corpo-mente/espírito não se trata de outra coisa, senão a maior patologia psicológica da história do homem. Responsável por todos os nossos equívocos científicos, teologicos... responsável pela morte de milhares de pessoas ao longo da história da humanidade e que, a depeito disso, continua a refletir o modo de se pensar e agir das religiões judaico-cristãs de nosso tempo. O reflexo disso hoje? Muito dos problemas de ansiedade de nosso tempo. Bom... imagine aqueles padres, esquartejados do direito de sentir o próprio corpo e tudo o que provém de suas necessidades carnais... Seriam, no mínimo, condenados ao ostracismo caso pisassem fora da linha moral estabelecida em uma época em que as mulheres bonitas e sedutoras eram a significação da encarnação do mal e o padrão de beleza humana era a "inocência virginal" da Virgem Maria, imaculada. Porém, caros leitores, o desejo carnal, profano, também existiam nestes padres emosteirados... e como isso se expressava? Com a fuga estratégica e poética das artes... especialmente da literatura. Carl Orff aproveitou-se, então, de textos sacro-profanos escritos por estes padres ardentes por seus desejos não realizados, apreciadores da imagem da inocência virgem, em que se declaravam, anonimamente, seres humano como qualquer outro. Estes textos foram achados em compartimentos ultra-secretos de uma biblioteca medieval. Escritos em latim, versam sobre desejos escondidos, profanações. São versos que nunca, sob pena de morte, seriam divulgados no período em que foram escritos... No vídeo, os quatro últimos poemas musicados por Orff na compilação chamada de Carmina Burana. Esta seqüência, que demostra genialmente em tons de tragi-comédia, possui claras impressões de que se narram "coisas desesperadas", em alguns momentos e de "coisas em que se precisa cantar baixo", entre outros. Fazendo da música uma transcrição dos sentimentos e da agonia dos monges medievais escritores de tais poemas. Os três primeiros poemas, menos conhecidos, preparam o ápice do último, tema superconhecido pela cultura ocidental. Trata-se de "O Fortuna". A baixo, os poemas em latin, para se acompanhar, e sua tradução para o português... Divertimentos!
Poema I - (Coral e Solista Baixo)
Tempus es iocundum - É tempo de alegria
o virgines, - oh virgens
- modo congaudete - divirtam-se conosco
vos iuvenes! - oh, rapazes.
Oh, oh, oh! totus floreo! - oh, oh, oh, desabrocho por inteiro
iam amore virginali totus ardeo! - ardo totalmente em um amor virginal
novus, novus amor est, quo pereo! - É um novo, novo amor, que me consome
Mea me confortat promissio, - a mim, conforata-se a promessa
mea me deportat negatio. - a mim, desterra-se a recusa
Oh, oh, oh! totus floreo! - oh, oh, oh, desabrocho por inteiro!
iam amore virginali totus ardeo! - ardo totalmente em um amor virginal
novus, novus amor est, quo pereo! - É um novo, novo amor, que me consome
Tempore brumali - em tempo de inverno
vir patiens, - o homem é paciente
animo vernali - mas com o sopro da primavera
lasciviens. - torna-se lascivo.
Oh, oh, oh! totus floreo! - oh, oh, oh, desabrocho por inteiro!
iam amore virginali totus ardeo! - ardo totalmente em um amor virginal
novus, novus amor est, quo pereo! - É um novo, novo amor, que me consome
Mea mecum ludit - comigo brinca
virginitas, - minha virgindade
mea me detrudit - a mim preserva
simplicitas. - minha simplicidade
Oh, oh, oh! totus floreo! - oh, oh, oh, desabrocho por inteiro!
iam amore virginali totus ardeo! - ardo totalmente em um amor virginal
novus, novus amor est, quo pereo! - É um novo, novo amor, que me consome
Veni, domicella, - vem, minha soberana
cum gaudio, - com alegria
veni, veni, pulchra, - vem, vem, minha bela
iam pereo! - que estou me consumindo
Oh, oh, oh! totus floreo! - oh, oh, oh, desabrocho por inteiro!
iam amore virginali totus ardeo! - ardo totalmente em um amor virginal
novus, novus amor est, quo pereo! - É um novo, novo amor, que me consome
Poema II - (Soprano)
Dulcissime, ah! - Dulcíssima, ah!
Totam tibi subdo me! - Entrego-me todo a ti!
BLANZIFLOR ET HELENA - Branca Flor e Helena
Poema III - (Coral)
Ave, formosissima, - Salve, a formosíssima
gemma pretiosa, - gemma preciosa
ave, decus virginum, - salve, o decoro das virgens
virgo gloriosa, - virgem gloriosa
ave, mundi luminar, - salve a luz do mundo
ave, mundi rosa, - salve, a rosa do mundo
Blanziflor et Helena, Branca Flor e Helena
Venus generosa! - Vênus generosa!
Poema IV - (Coral)
FORTUNA - DESTINO
IMPERATRIX MUNDI - IMPERADOR DO MUNDO
O Fortuna - Ó Destino
O Fortuna, - Ó, Destino,
velut Luna - como a lua
statu variabilis, - é mutável
semper crescis - sempre cresces
aut decrescis; - e decresces
vita detestabilis - vida detestável
nunc obdurat - ora escurece
et tunc curat - ora esclarece (cura),
ludo mentis aciem, - como um jogo,
egestatem, - as mazelas da mente.
potestatem - Indigentes e poderosos
dissolvit ut glassiem. - tu os dissolve como gelo.
Sors immanis - Sorte brutal
et inanis, - e vazia,
rota tu volubilis, - tu, roda volúvel,
status malus, - És má
vana salus - E tornas vã
semper dissolubilis, - sempre dissoluta (dissolúvel),
olumbrata et velata - nebulosa e velada
michi quoque niteris; - também a mim assedias;
nunc per ludum - agora, no jogo,
dorsum nudum - entrego meu dorso nu
fero tui sceleris. - à tua malvadez.
Sors salutis - A sorte na saúde
et virtutis - e na virtude
michi nunc contraria - agora me é contrária.
est affectus - Dá
et defectus - e tira
semper in angaria. - deixa-me refém
Hac in hora - Nesta hora
sine mora - sem demora
cordum pulsum tangite; - tange a corda pungente;
quod per sortem - porque a sorte
sternit fortem, - abate o forte,
mecum omnes plangite! - e devemos todos chorar!
Boa diversão!
Weslay Mendonça
Nenhum comentário:
Postar um comentário